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EDITORIAL: Você é manipulado?

A manipulação do interesse público é precisa quando você não percebe que está acontecendo. Arte: OTB

Por Paulo Campos dia em Eventos e Ações OTB

EDITORIAL: Você é manipulado?
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Agência Trabalhador – São Paulo

EDITORIAL

Paulo Campos é vice presidente nacional da OTB – Ordem dos Trabalhadores do Brasil.

Antes de cair no julgamento fácil aquele que repete, sem pensar, que todo militante de direita é alienado é preciso encarar uma realidade mais complexa, mais incômoda e, sobretudo, mais verdadeira: a polarização brasileira não surgiu por acaso. Ela foi construída.
A pergunta central não é simples, mas é inevitável: por que uma parcela tão grande da população apoia ideias que, na prática, trabalham contra seus próprios interesses?

A resposta não está na ignorância como muitos preferem acreditar para encerrar o debate. A resposta é mais profunda. E mais desconfortável.

Na base desse fenômeno está um elemento histórico persistente: o racismo.

Para compreender isso, é necessário voltar no tempo. Durante o governo Vargas, ainda que de forma limitada, houve uma tentativa de impor freios ao racismo explícito. Nos anos 1930, passou a não ser mais socialmente aceitável expressar abertamente o preconceito que, até então, era naturalizado no Brasil.

Mas o racismo não desapareceu. Ele apenas mudou de forma. Tornou-se silencioso, disfarçado, estrutural. Continuou presente nos salários mais baixos, nas oportunidades negadas, na educação desigual. Continuou operando, apenas de maneira mais sofisticada.
A isso se soma outro fator decisivo: a formação demográfica do país. A chegada massiva de imigrantes europeus, especialmente para São Paulo e o Sul, contribuiu para a construção de uma divisão racial e regional que persiste até hoje.

Os números falam por si: enquanto o Norte e o Nordeste concentram majoritariamente populações negras, o eixo Sul–Sudeste apresenta uma composição significativamente mais branca.

Esse não é apenas um dado demográfico. É uma linha de fratura social.

Diante da impossibilidade de expressar o preconceito de forma direta, o discurso das elites e daqueles que aspiram a ser elite precisou se reinventar. O alvo deixou de ser explicitamente racial e passou a ser moral.

Surge, então, o discurso da corrupção como característica¹ “natural” do brasileiro. Uma ideia conveniente, que desloca o debate e esconde sua verdadeira função: manter hierarquias sociais intactas.

O racismo se transforma. Deixa de ser apenas racial e passa a ser também de classe. O inimigo agora é o pobre rotulado como preguiçoso, incapaz, corrupto por natureza. E, não por acaso, frequentemente associado às regiões mais vulneráveis do país.
Enquanto isso, constrói-se uma ilusão poderosa: a meritocracia.

Milhões de brasileiros, especialmente no Sul e Sudeste, são levados a acreditar que fazem parte de uma elite — ou que estão a poucos passos dela. Mas a realidade é outra. A esmagadora maioria permanece distante desse topo, restrita a uma vida de esforço constante e recompensa limitada.

Trabalham muito. Ganham pouco. Vivem em um estado de relativo conforto suficiente para não passar fome, mas insuficiente para ascender.

É a armadilha perfeita: não estão na miséria, mas também não têm acesso ao poder. E, ainda assim, defendem o sistema que os mantém exatamente onde estão.

Enquanto isso, a verdadeira elite concentra riqueza, controla os meios de produção e influencia a comunicação. A classe média consolidada monopoliza o acesso à educação de qualidade e às melhores oportunidades.

E o restante? Acredita. Espera. Trabalha. E dificilmente chega lá.

Por isso, quando você ouvir que o nordestino é preguiçoso ou que “vive de benefício”, não aceite de imediato. Questione. Desconfie. Pergunte a quem esse discurso realmente serve.

E, principalmente, observe com atenção: quando o debate político abandona propostas concretas emprego, renda, educação, saúde e passa a girar em torno de costumes, moralidade ou medo, há algo sendo escondido de você.

Porque a função de um governo é simples. Não é moralizar. Não é dividir. Não é distrair.

É promover o progresso. É melhorar a vida das pessoas.

E sempre que isso sai de foco, alguém está sendo manipulado.

 

¹Quando, na realidade, não há quaisquer indícios que os portugueses fossem mais corruptos ou corruptíveis que qualquer população européia daquela época. Ainda mais que o conceito de corrupção, com roubo ou desvio do que é público em proveito próprio somente adveio após a revolução francesa.

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