Editorial: racismo à brasileira
Como o preconceito mudou de linguagem para continuar existindo. Arte: acervo OTB
Por Paulo Campos dia em OTB no Brasil
EDITORIAL
Paulo Campos é Vice-Presidente Nacional da OTB – Ordem dos Trabalhadores do Brasil
Agência Trabalhador – São Paulo
Há um fenômeno recorrente no debate público brasileiro que merece ser tratado com a devida franqueza: a impressionante capacidade de certos grupos em distorcer a realidade para sustentar narrativas que, no fundo, preservam velhos preconceitos.
Parte dos movimentos hoje identificados com a extrema-direita (já não mais homogêneos, mas ainda conectados por uma origem comum) sustenta uma premissa frágil: a de que o racismo não existe no Brasil. Essa negação não é nova, mas ganhou novas formas ao longo das últimas décadas.
A partir do avanço do chamado “politicamente correto”, no final dos anos 1980, manifestações explícitas de racismo passaram a encontrar maior rejeição social. Isso, no entanto, não eliminou o preconceito, apenas o transformou. O discurso deixou de ser abertamente racial para assumir contornos culturais, sem que houvesse mudança real na estrutura de pensamento que o sustenta.
É nesse contexto que ressurgem ideias separatistas, especialmente em regiões como o Sul e o Sudeste. Sob o argumento de que determinados estados “sustentam” o país, constrói-se uma narrativa que opõe trabalhadores “produtivos” a um suposto Brasil “dependente”, frequentemente associado às populações do Norte e Nordeste. Trata-se de uma simplificação perigosa e não por acaso, profundamente conectada a recortes sociais e raciais.
Outro exemplo dessa transfiguração do preconceito aparece nos discursos em defesa de uma suposta “moralidade”. Sob esse rótulo, legitimam-se posições que naturalizam a violência e restringem liberdades individuais. Expressões como “bandido bom é bandido morto” deixam de ser apenas slogans e passam a refletir uma visão de mundo que seleciona quem merece ou não direitos, frequentemente com base em critérios implícitos de classe e cor.
Nos últimos anos, esse ambiente encontrou terreno fértil para se expandir. O bolsonarismo, ao se apresentar como movimento de ruptura, acabou oferecendo espaço para que preconceitos antes contidos viessem à tona, agora revestidos de discurso político. Muitos dos que aderem a essa retórica acreditam estar participando de uma luta legítima contra o sistema, sem perceber que reproduzem padrões históricos associados a experiências autoritárias que tiveram consequências trágicas.
O resultado é preocupante: a normalização de uma ideia de “ordem” que admite a violência como instrumento legítimo de controle social. Uma espécie de “violência pacificadora” travestida de solução.
Diante disso, é essencial que o debate público recupere sua base na realidade, rejeitando simplificações e enfrentando, com clareza, os problemas estruturais do país. Ignorar o passado ou disfarçar suas marcas não elimina suas consequências.
Apenas as perpetua sob novas formas.